Revista Globo Ciência – Pipeiros e Eolistas

Revista Globo Ciência
Ano 5 – Dezembro 1995 – Nº 53
(Cláudio Fragata)

Foi por estas razões que ele acabou se transformando no maior especialista brasileiro da área, mas o título do qual ele mais se orgulha é o que recebeu da Associação Mundial de Eolismoentrevistas_mor a principal entidade do esporte, cujo nome deriva de Éolo, o deus grego dos ventos. Isto aconteceu depois de sua apresentação na abertura da Eco-92, no Rio de Janeiro, quando colocou no ar um múltiplo – várias pipas atreladas – representando cada um dos países filiados à ONU.

Ao lado, Ave do Paraíso é o nome desta pipa de Silvio Voce, uma estilização de asa-delta de 35 metros de comprimento, que está exposta no Kite Museum, de Nova Déli, Índia. “Sou o único eolista da América Latina”, orgulha-se Voce, que aproveita para explicar a diferença entre pipeiros e eolistas: “Os primeiros empinam pipas por mero diletantismo, sem ter um vínculo técnico e profissional com elas”, define. “Aliás, os pipeiros são peritos em infringir as normas de segurança do esporte, alçando suas pipas junto às redes elétricas, por exemplo, coisa que um eolista jamais faria.”

Tendo vento a favor, Silvio Voce empina qualquer tipo de pipa, das mais simples às ultra-elaboradas. Mas as suas preferidas, com as quais costuma se apresentar em estádios,são as moderníssimas Duplo-Comando. Construídas com material importado – velas impermeáveis de náilon resinado e vareta de fibra de carbono -, estas pipas são pilotadas por meio de duas linhas, podendo atingir velocidades superiores a 100km/h, o que possibilita criar movimentos radicais, do looping aos vôos rasantes. “É uma espécie de asa acrobática”, explica. “Mas já estão vindo aí as quad-lines, empinadas com quatro linhas, duas delas presas aos pulsos, que permitem fazer manobras semelhantes às de um helicóptero”.

entrevistas_barraVocê prefere as apresentações noturnas, para as quais criou uma coreografia especial, acoplando fogos de artifício às pipas. Entre as suas maiores proezas aéreas está a de empinar uma pipa gigante, de 80 metros quadrados.

“Isto não é nada perto do que se faz no exterior”, comenta. “Os holandeses, que são campeões mundiais em tamanho de pipas, fizeram um parafólio de 400 metros quadrados (foto ao lado). Os japoneses, por seu lado, ergueram um múltiplo de 1 km de comprimento.”

O que é uma pipa, afinal de contas? Quem responder que é um artefato feito com papel de seda, duas varetas e cola terá acertado, mas também incorrerá no perigo de ser um tanto simplista. Hoje, ela tem as mais variadas formas, que vão das tradicionais até modelos inusitados, inventados de acordo com a criatividade do empinador. Pode ainda ser construída com materiais diversos, do papel ao náilon para as velas e do pinho ao bambu para as varetas, dependendo dos ventos locais. “As possibilidades de se inventar novos modelos são infinitas e a geometria ajuda muito nisso”, garante Sílvio. “Eu criei, por exemplo, a pipa multiformas, que ao se mudar o posicionamento das linhas ela vai adquirindo outros formatos.”

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