Revista Globo Ciência – 50 Esporte – As pipas estão voando mais alto

Revista Globo Ciência
Ano 5 – Dezembro 1995 – Nº 53
(Cláudio Fragata)

50 Esporte – As pipas estão voando mais alto.
Criados pelos chineses há milênios, estes engenhosos brinque-dos entram na era high-tech querendo se tornar modalidade olímpica.

entrevistas_cobraQuem ainda pensa que empinar pipa é uma brincadeira de criança não sabe o que está perdendo. Milhares de adultos no mundo todo descobriram o prazer de equilibrar no céu estes levíssimos e divertidos engenhos aerodinâmicos. Por isso, hoje, as pipas passaram à categoria de esporte, adquirindo às vezes a condição de obras de arte construídas com rigor científico. Apesar de os americanos estarem entre os mais entusiasmados adeptos da modalidade, seguidos pelos holandeses e canadenses, a mania se espalhou por todos os continentes.

Uma prova disso são os festivais internacionais de pipas que acontecem com calendário fixo, alguns já consagrados como o de Dieppe, na França, dedicado à paz entre os povos, o de Long Beach, nos Estados Unidos, o de Hamamatsu, no Japão, e o da Cérvia, na Itália.

Ao lado, pipa monocomandada do francês Pierre Fabre com cauda de 50 metros.
A consagração virá, certamente, com as olimpíadas de Atlanta, Estados Unidos, no próximo ano, quando está prevista a apresentação das pipas como esporte, para que nos jogos do ano 2000 elas já integrem a categoria de competição. No Brasil, a situação não é muito diferente do resto do mundo. Revoadas e campeonatos são realizados por aficcionados de norte a sul. Até um pipódromo oficial já foi instalado no Parque Villa Lobos, na Zona Oeste de São Paulo, onde normas de segurança rígidas norteiam as exibições, entre elas a terminante proibição do uso de cerol – Mistura de cola e caco de vidro moído que, passada na linha, deixa-a cortante. Esse material é usado pela garotada nos combates aéreos, quando um tenta cortar a linha do outro.

Embora na ordem do dia neste final de século, o fascínio exercido por estes brinquedos voadores vem de longe. Pelo menos, de três milênios atrás. Ninguém sabe ao certo quando entrevistas_olhossurgiram, porém os registros fazem supor que foram inventados pelos chineses em torno de 200 anos a.C. A idéia original não era a de encantar hordas de chinezinhos.
Aliás, estas pipas primitivas nem brinquedos eram. Feitas de madeira, tinham fins exclusivamente militares, sendo usadas como sinalizadores que pairavam sobre as tropas inimigas. Só mais tarde confeccionadas com tecido de seda e varetas de bambu, acabaram por ganhar características lúdicas. Da china, a pipa foi introduzida no Japão, de onde, trazida pelos navegadores europeus, espalhou-se por todo o Ocidente. Chegou ao Brasil através dos colonizadores portugueses e há notícias de que foi usada por sentinelas avançadas do Quilombo dos Palmares também como sinalizadora de perigos, assim como hoje os moradores dos morros cariocas a utilizam para denunciar a presença da polícia.

Acima, uma pipa de Silvio Voce inspirada no tema “Os Olhos do Mundo”, lançado pela bienal de Dieppe de 1992.

A verdade é que atualmente cada vez mais brasileiros, de todas as idades, ocupam-se delas.

Alguém que abandona uma promissora carreira na aviação e fica empinando pipas em tempo integral tem tudo para ser considerado a ovelha negra da família. Mas este não é o caso de Silvio Voce, que trocou o curso de engenharia aeronáutica no CTA – Centro Técnico da Aeronáutica de São José dos Campos, SP, pelo trabalho de projetar, construir e empinar pipas, fazendo disso uma profissão bem-sucedida. “Na verdade, não abandonei a aviação, apenas voltei às suas origens”,diz ele, lembrando que Santos Dumont usou pipas celulares tipo caixa, em seus experimentos iniciais. “Aliás, o avião 14 Bis nada mais era do que uma grande pipa motorizada”, brinca. Voce resolveu mudar de vida no começo da década de 80. Hoje, 15 anos depois, ele é dono de uma empresa de promoções e eventos especializada em pipas, que tem entre seus clientes organizações como a ONU e Unicef ou empresas do porte da Coca-Cola. Autor de diversos livros sobre como fazer e empinar pipas, que agora começam a ser traduzidos no exterior, Voce já perdeu a conta dos cursos e oficinas que coordenou pelo país afora.

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